(Re) Pensando o Direito

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Carta a Karl Kautsky

Carta a Karl Kautsky Friederich Engels Fevereiro 1891 Fonte: The Marxists Internet Archive Londres, 23 de Fevereiro de 1891 Meu caro Kautsky: Recebeste, certamente, as minhas vivas felicitações de anteontem. Voltemos, pois, agora, ao nosso assunto, à carta de Marx (1). O receio de que proporcionasse uma arma aos adversários era infundado. insinuações maldosas fazem-se a propósito de tudo, mas, no seu conjunto, o efeito que causou nos nossos adversários foi de completa perplexidade ante esta implacável autocrítica, e sentiram a força interior que deve ter um partido para permitir-se tais coisas! É isso o que ressalta dos periódicos de oposição que me enviaste (obrigado!) e dos que chegaram às minhas mãos por outras vias. E falando com franqueza, foi esta a intenção com que publiquei o documento. Não ignorava que, aqui e além, iria provocar, num primeiro instante, uma impressão muito desagradável, mas isso era inevitável, e o conteúdo do documento pesou em mim mais do que todos os inconvenientes. Sabia que o Partido era suficientemente forte para o aguentar e calculei que suportaria, também agora, aquela linguagem franca de há quinze anos atrás, e que se assinalaria, com justificado orgulho, esta prova da nossa força, e se diria: que Partido pode atrever-se a fazer outro tanto? O dizê-lo, porém, foi deixado a cargo dos Arbeiter Zeitung da Saxónia e de Viena e do Züricher Post (2). É magnifico da tua parte assumires a responsabilidade de o publicar no número 21 da Neue Zeit (3), mas não esqueças que o empurrão o dei eu, pondo-te de resto, digamos assim, entre a espada e a parede. Por isso reivindico para mim a principal responsabilidade. Quanto a pormenores podem sustentar-se critérios diferentes, bem entendido. Risquei e alterei todas aquelas coisas a que tu e Dietz tinham feito reparos, e se Dietz tivesse assinalado outros pontos, eu, na medida do possível, teria procurado ser transigente: sempre vos dei provas da minha boa vontade. Mas o essencial era a obrigação moral em que me encontrava de dar à coisa publicidade imediata, já que se punha o programa em debate. E com maior motivo depois do discurso de Liebknecht no congresso de Halle, no qual este se apropria sem escrúpulos de extractos do documento como se fossem seus e combate o resto sem o mencionar. Marx teria, certamente, oposto o original a semelhante versão, e eu sentia-me obrigado a fazer o mesmo em seu lugar. Infelizmente, na altura, eu ainda não tinha o documento, que só encontrei muito mais tarde, depois de prolongada busca. Dizes que Bebel te escreve a dizer que a forma como Marx tratou Lassalle aguçou a cólera dos velhos lassallianos. É possível. As pessoas, até agora, não conhecem a verdadeira história, e nada se fez para explicar-lha. Não tenho culpa que essa gente ignore que Lassalle devia toda a celebridade ao facto de Marx lhe ter permitido durante muitos anos, adornar-se com os frutos das suas investigações como se fossem dele, com o risco, de resto, de as falsear por falta de preparação em matéria de Economia. Eu sou, porém, o testamenteiro literário de Marx, e isso impõem-me certos deveres. Lassalle passou à história há vinte e seis anos. E se, enquanto esteve vigente a lei de excepção contra os socialistas, a crítica histórica o deixou em paz, já vão sendo, finalmente, horas de ela fazer valer os seus direitos e de se pôr a claro a posição de Lassalle em relação a Marx. A lenda que envolve e glorifica a verdadeira figura de Lassalle não pode converter-se em artigo de fé para o Partido. Por muito que se queira destacar os serviços prestados por Lassalle ao movimento, o seu papel histórico continua sendo um papel equívoco. Ao socialista Lassalle segue-o, como sombra ao corpo, o demagogo Lassalle. Por detrás do agitador e do organizador, assoma o Lassalle que dirige o processo de Hatzfeld (4): o mesmo cinismo quanto à escolha dos meios e a mesma predilecção em rodear-se de pessoas duvidosas e corruptas, que só utiliza como simples instrumento que logo rejeita. Até 1862, na sua actuação prática, foi um democrata vulgar, marcado pela origem prussiana, com vincadas tendências bonapartistas, (acabo, precisamente, de reler as suas cartas a Marx); em seguida, subitamente, mudou, por razões puramente pessoais, e começou a sua campanha de agitação; não eram transcorridos dois anos, propugnava que os operários deviam tomar partido pela monarquia contra a burguesia, e lançou-se em intrigas tais com Bismark, seu afim em carácter, que o teriam, forçosamente, conduzido a trair, de facto, o movimento, se, por sorte para si, o não tivessem assassinado a tempo. Na sua propaganda escrita, as verdades que ia buscar a Marx estão de tal modo embrulhadas com as suas falsas deduções pessoais que resulta difícil separar a verdade do erro. Aqueles operários que se sentem feridos pelos juízos de Marx, só conhecem de Lassalle os seus dois anos de agitação, e, de resto, vistos de uma óptica cor-de-rosa. A crítica histórica não pode, todavia, prostrar-se eternamente diante de tais preconceitos. Para mim, era um dever, de uma vez para sempre, pôr a nu as verdadeiras relações entre Marx e Lassalle. Já está feito. Com isto dou por contente, de momento. Demais a mais, eu tenho agora outras coisas a fazer. E o juízo implacável de Marx sobre Lassalle, já publicado, ecarregar-se-á, por si só, de surtir os seus efeitos e incutir ânimo a outros para falarem francamente. Se, porém, me visse obrigado a tal, não teria outro remédio que não fosse acabar de vez com a lenda de Lassalle. Tem a sua graça a opinião largamente expressa no grupo parlamentar de que se deve impor uma censura à neue Zeit. A que é isso devido? À memória dos tempos da autocracia da facção socialista do Reichstag (5), da lei de excepção (que foi, apesar de tudo, necessária e conduzida magnificamente)? ou à recordação da organização outrora fortemente centralizada de Schweitzer? É, na verdade, uma ideia genial pensar em submeter a ciência socialista alemã, após tê-la libertado da lei de Bismark (6) contra os socialistas, a uma nova lei anti-socialista que os próprios funcionários do Partido social-democrata teriam de fabricar e pôr em execução. de resto, a própria natureza dispôs que as àrvores não crescerão até ao céu - os desejos não se tornarão realidade. O artigo do «Vorwärts» não me preocupa muito (7). Esperarei que Liebknecht relate, à sua maneira, o ocorrido, e depois responderei a ambos, no tom mais amistoso possível. Haverá que corrigir algumas inexactidões do artigo do «Vorwärts » (por exemplo, que nós não queriamos a unificação; que os acontecimentos viram provar que Marx se enganou, etc.) e alguns pontos carecem, evidentemente, de confirmação. Penso, com esta resposta, dar por terminados, pela minha parte, os debates, a não ser que novos ataques ou afirmações inexactas me obriguem a dar novos passos. Diz a Dietz que estou a trabalhar na nova edição da Origem (8). Mas hoje escreve-me Fischer, que quer três novos prefácios. Teu, Friederich Engels Notas: (1) Refere-se à «Crítica do programa de Gotha », publicada, por intermédio de Engels, na «Neue Zeit», de que Kautsky era director. (retornar ao texto) (2) Engels enumera os jornais social-democratas que, em fevereiro de 1891, publicaram as cartas aprovando a vinda a lume da obra de Marx - Crítica do Programa de Gotha. O Arbeiter-Zeitung (jornal operário), órgão da social-democracia austríaca, lançado em Viena, a partir de 1889, sob a redacção de V. Adler. Nele fez sair Engels uma série de artigos seus nos anos 90. O Sächsische Arbeiter-Zeitung (jornal operário saxónico), diário dos social-democratas alemães, tornouse. aí pelo começos dos anos 90, órgão central do grupo dos «jovens», grupo de oposição e de tendências anarquizantes. Publicou-se em Dresde de 1890 a 1908. Por último, o Züricher Post (O Correio de Zurique) era um jornal de tendência democrática (burguesa) que se publicou em Zurique de 1879 a 1936. (retornar ao texto) (3) Die Neue Zeit (O Tempo Novo) - revista teórica da social-democracia alemã, que se publicou em Estugarda de 1883 a 1923. Engels colaborou na revista com uma série de artigos, entre os anos que vão de 1885 a 1894. (retornar ao texto) (4) Trata-se do processo de divórcio intentado pela condessa Sophie Hatzfeld, que Lassalle dirigiu, na qualidade de advogado, nos anos 1846-1854. Exagerando, para lá das marcas, a importância deste processo cujo móbil era a defesa dos interesses duma velha família aristocratica, Lassalle assimilava-o à luta pela causa dos oprimidos.. (retornar ao texto) (5) Trata-se da minoria social-democrata no Rechstag alemão. (retornar ao texto) (6) A lei de excepção contra os socialistas, adoptada em 1878, na Alemanha, proibia todas as organizações do Partido social-democrata, as organizções de massas, a imprensa operária ea literatura social-democratas. Devido à pressão do movimento operário de massas, foi abolida em 1890. (retornar ao texto) (7) O artigo editorial do «Vorwärts» (de 13 de Fevereiro de 1891), órgão central sa social-democracia alemã, sustentava o ponto de vista oficial da Comissão Executiva do Partido referente à publicação da «Crítica do programa de Gotha». O artigo condenava, do modo mais duro, as opiniões de Marx sobre Lassalle e considerava como mérito do Partido que este, não obstante a crítica de Marx, tivesse aprovado o projecto do programa. (retornar ao texto) (8) Trata-se da quarta edição alemã da «Origem da família, da propriedade e do Estado» do próprio Engels. (retornar ao texto)

Uma Entrevista com Leon Trotsky

Setembro de 1938 Uma Entrevista com Leon Trotsky Mateo Fossa Setembro de 1938 Fonte: The Marxists Internet Archive Fossa: Qual será, em sua opinião o desenvolvimento futuro da situação atual na Europa? Trotsky: É possível que também nessa ocasião a diplomacia possa chegar a um desonroso compromisso. Mas ele não durará muito tempo. A guerra é inevitável em um futuro muito próximo. Uma crise internacional segue a outra. Suas convulsões são as dores do parto da guerra que se aproxima. Cada novo paroxismo terá um caráter mais severo e perigoso. Atualmente não vejo nenhuma força no mundo que possa deter o desenvolvimento desse processo, ou seja, o início da guerra. Uma terrível matança avança inexoravelmente em direção à humanidade. Naturalmente, uma ação revolucionária oportuna por parte do proletariado internacional poderia paralisar o serviço de rapina dos imperialistas. Mas nós devemos encarar a realidade. As massa trabalhadoras da Europa, em sua imensa maioria, estão sob a direção da Segunda e Terceira internacionais (1). Os dirigentes da Internacional sindical de Amsterdã apoiam a política das direções da Segunda e Terceira Internacionais e estão a seu lado no que se chama "Frentes Populares" (2). A política da Frente Popular como demonstram os exemplos de da Espanha, França e outros países consiste em subordinar o proletariado à ala esquerda da burguesia. Todavia toda a burguesia dos países capitalistas, tanto de direita como de "esquerda", está impregnada de chauvinismo e de imperialismo. A "Frente Popular" serve para transformar os operários em bucha de canhão para a sua burguesia imperialista. E para nada além disso. A Segunda e Terceira Internacionais e a Internacional sindical de Amsterdã são atualmente organizações contra-revolucionárias, cuja tarefa é freiar e paralisar a luta revolucionária do proletariado contra o imperialismo "democrático". Enquanto a criminosa direção dessas internacionais não for derrotada, os operários serão impotentes para opor-se à guerra. Essa é a amarga mas indiscutível realidade. Nós devemos aprender a encará-la de frente e não nos consolarmos com ilusões e discursos pacifistas. A guerra é inevitável! Fossa: Qual será o efeito da guerra sobre a luta da Espanha e sobre o movimento operário internacional? Trotsky: Para compreender corretamente a natureza dos próximos acontecimentos devemos antes de ais nada demostrar a teoria falsa e completamente equivocada segundo a qual a próxima guerra será uma guerra entre o fascismo e a "democracia. Nada é mais falso e mais estúpido do que essa idéia. As "democracias" imperialistas estão divididas por causa das contradições dos seus interesses em todo o mundo. A Itália fascista pode facilmente passar para o lado da Grã-Bretanha e da França se ela deixa de acreditar na vitória de Hitler. A Polônia semi-fascista pode unir-se a um outro lado, de acordo com as vantagens que lhe serão oferecidas. No transcorrer da guerra a burguesia francesa pode substituir sua "democracia" pelo fascismo para manter a submissão dos operários e obrigá-los a lutar "até o fim". A França fascista, assim como a frança "democrática", defenderá suas colônias com armas na mão. A nova guerra terá um caráter de rapina imperialista muito mais claro do que de 1914-18. Os imperialistas não lutam por princípios políticos, mas por mercados, colônias, matérias primas, pela hegemonia sobre o mundo e sobre suas riquezas. A vitória de qualquer um dos campos imperialistas representaria a escravidão definitiva de toda a humanidade, o fortalecimento da submissão de colônias existentes, dos povos fracos e atrasados, entre eles os da América Latina. A vitória de qualquer um dos campos imperialistas representará a escravidão, a desgraça, a miséria, a decadência da cultura humana. Qual é a saída, você me pergunta? Pessoalmente, não tenho dúvidas de que a nova guerra provocará uma revolução internacional contra a dominação das camarilhas imperialistas sobre a humanidade. Durante a guerra todas as diferenças entre "democracia imperialista" e o fascismo desaparecerão. Em todos os países uma ditadura militar impiedosa reinará. Os operários e camponeses alemães morrerão da mesma forma que os franceses e ingleses. Os modernos instrumentos de destruição sã tão aperfeiçoados que a humanidade provavelmente não será capaz de resistir à guerra mais do que alguns meses. O desespero, a indignação, o ódio levarão as massas de todos os países em guerra a uma insurreição armada. A revolução socialista é inevitável. A vitória do proletariado mundial acabará com a guerra e resolverá dessa forma o problema espanhol, assim como todos os problemas atuais da Europa e de outras partes do mundo. Esses "dirigentes" da classe operária querem atrelar o proletariado ao tanque de guerra do imperialismo, coberto com a máscara da "democracia", são hoje os piores inimigos e os traidores diretos dos trabalhadores. Nós devemos ensinar os operários a odiar e a desprezar os agentes do imperialismo, pois eles envenenam a consciência dos trabalhadores; nós devemos explicar aos operários que o fascismo é apenas uma das formas do imperialismo, que nós não devemos lutar contra os sintomas exteriores da doença mas contra suas causas orgânicas, ou seja, contra o capitalismo. Fossa: Qual é a perspectiva para a revolução mexicana? Como você vê a desvalorização da moeda em relação com a expropriação das riquezas da terra? Trosky: Eu não posso falar suficientemente em detalhes sobre essas questões. A expropriação da terra e das riquezas naturais é uma medida indispensável de defesa nacional para o México. Não satisfazendo as necessidades cotidianas do campesinato, nenhum país latino-americano poderá obter sua independência. A queda do poder de compra da moeda é um resultado do bloqueio imperialista contra o México, que já começou. As privações materiais são inevitáveis na luta. É impossível salvar-se sem sacrifícios. Capitular diante dos imperialistas significaria abandonar a riqueza natural do país à pilhagem e o povo à decadência e a extinção . Evidentemente as organizações operárias devem estar atentas para que o aumento do custo de vida não recaia fundamentalmente sobre os trabalhadores. Fossa: O que você pode dizer sobre a luta de libertação dos povos da América Latina e sobre os problemas do futuro? Qual é a sua opinião sobre o aprismo? (3) Trotsky: Eu não estou suficientemente a par da vida de cada um países da América Latina para poder dar uma resposta concreta às questões que você me apresenta. De qualquer maneira, me parece claro que as tarefas internas desses países não podem ser resolvidas sem uma luta revolucionária simultânea contra o imperialismo. Os agentes dos Estados Unidos, Inglaterra, França (Lewis, Jouhaux, Lombardo Toledano, os estalinistas) (4) tentam substituir a luta contra o imperialismo pela luta contra o fascismo. Nós temos observado os esforços criminosos feito por eles no recente congresso contra a guerra e o fascismo. Nos países da América Latina, os agentes dos imperialismos "democráticos" são particularmente perigosos, porque são mais capazes de enganar as massas que os agentes declarados dos bandidos fascistas. Eu tomarei o exemplo mais simples e mais demonstrativo. Existe atualmente no Brasil um regime semi-fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil "fascista" contra a Inglaterra "democrática". Por que? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas (5). A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. É preciso não Ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões por trás de qualquer máscara que eles utilizem! Em todos os países latino-americanos, os problemas da revolução agrária estão indissociavelmente ligados à luta anti-imperialista. Os stalinistas estão, hoje, buscando paralisar as duas lutas. Para o kremlin, os países latino-americanos são apenas pequenas moedas em seus negócios com os imperialistas. Stalin diz em Washington, Londres e Paris: "Reconheçam-me como um parceiro em condições de igualdade e eu ajudarei vocês a esmagar o movimento revolucionário nas colônias e semi-colônias; para isso tenho sob minhas ordens centenas de agentes como Lombardo Toledano". O stalinismo tornou-se lepra do movimento de libertação mundial. Não conheço suficientemente o aprismo para dar sobre ele um parecer definitivo. No Peru, a atividade desse partido tem um caráter ilegal, e, consequentemente, é difícil observá-la. Os representantes do APRA no congresso de setembro contra a guerra e o fascismo reunido no México, adotaram, em minha opinião, uma posição digna e correta conjuntamente com os delegados de Porto Rico. A esperança é que o APRA não se torne uma presa do stalinismo, por que isso paralisaria a luta pela libertação no Peru. Eu creio que os acordos com os apristas em tarefas práticas bem definidas são possíveis e desejáveis, sob condição de uma completa independência organizativa. Fossa: Que conseqüências terá a guerra para os países da América Latina? Trotsky: Sem dúvida, os dois campos imperialistas tentarão envolver os países latino-americanos na guerra para, em seguida, reduzí-los à escravidão completa. O vazio palavrório "anti-fascista" somente prepara o terreno para os agentes de um dos campos imperialistas. Para prepararem-se para a guerra mundial, os partidos revolucionários da América Latina deveriam aproximar-se uns dos outros. Em um primeiro período da guerra, a posição dos povos fracos pode tornar-se muito difícil. Porém, os campos imperialistas se enfraquecerão cada vez mais, mês após mês. A luta mortal entre eles permitirá aos países latino-americanos. Eles serão capazes de atingir sua completa libertação, se à frente das estiverem partidos e sindicatos verdadeiramente revolucionários, anti-imperialistas. Não se pode cair de circunstâncias históricas trágicas através de estratagemas, frases ocas ou pequenas mentiras. Nós devemos dizer a verdade às massas, toda a verdade e apenas a verdade. Fossa: Quais são, em sua opinião, os métodos e as tarefas dos sindicatos? Trotsky: Para que os sindicatos possam ser capazes de reunir, educar e mobilizar o proletariado para uma luta de libertação, eles devem libertar-se do métodos totalitários do stalinismo. É preciso abrir os sindicatos aos operários de todas as tendências, mantendo-se a disciplina na ação. Toda pessoa que transforma os sindicatos em uma arma destinada a fins exteriores (em particular com instrumento da burocracia stalinista e do imperialismo "democrático") divide inevitavelmente a classe operária, a enfraquece e abre as portas à reação. Uma completa e honesta democracia no interior dos sindicatos é a condição mais importante para a democracia no país. Para terminar, eu peço a você que transmita minha saudação fraternal aos operários da Argentina. Sei que eles não acreditam nas desagradáveis calúnias que os agentes stalinistas fazem circular no mundo sobre minha pessoa e sobre meus amigos. A luta da IV Internacional contra a burocracia stalinista é uma continuação da grande luta histórica dos oprimidos contra os opressores, dos explorados contra os exploradores. A revolução internacional libertará todos os oprimidos, inclusive os trabalhadores da URSS. Notas: (1)- A Segunda Internacional foi organizada em 1889 como uma associação dos partidos socialdemocratas e operários, reunindo elementos revolucionários e reformistas. Seu papel progressivo encerrou-se em 1914, quando suas principais seções violaram os princípios socialistas internacionalistas mais elementares apoiando seus governos respectivos na guerra imperialista. Ela desapareceu durante a Primeira Guerra Mundial e foi ressuscitada como organização totalmente reformista em 1923.(retornar ao texto) (2) - Internacional Sindical de Amsterdã era o nome pela qual era conhecida a Federação Internacional dos sindicatos de orientação social-demcrtata, com sede em Amsterdã.(retornar ao texto) (3) - O APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana) possuía em seu apogeu partidários em Cuba, México, Peru, Chile, Costa Rica, Haiti e Argentina. O Aprismo foi o primeiro movimento a lutar pela unidade latino-americana contra o imperialismo. O APRA elaborou um programa populista de 5 pontos: unidade de ação contra o imperialismo ianque; unidade da América Latina; industrialização e reforma agrária; internacionalização do canal do Panamá; solidariedade mundial de todos os povos e classes oprimidas. Depois o APRA degenerou, tornando-se um partido liberal, anti-comunista e agente do imperialismo ianque.(retornar ao texto) (4) - John L. Lewis (1880-1969) foi presidente da United Mine Workers of América (sindicato dos mineiros) de 1920 até a sua morte. Ele dirigia a minoria do Conselho executivo da AFL e foi o principal fundador do CIO. Leon Jouhaux (1870-1954) foi secretário-geral da CGT francesa. Reformista, socialpatriota, e colaboracionista de classes. Vicente Lombardo Toledano (1893-1968) stalinista, dirigia a Confederação dos Trabalhadores Mexicanos.(retornar ao texto) (5) - Getulio Vargas (1883-1954) foi o presidente do Brasil de 1930 a 1945, declarou as greves ilegais fechou as publicações operárias e prendeu os dirigentes sindicais. Sua constituição elaborada em 1937 interditava à classe operária qualquer direito enquanto classe. Ele chegou novamente ao poder em 1950, havendo nesse período atritos com o imperialismo norte americano. Em 1954 Vargas suicidou-se. (retornar ao texto)

segunda-feira, 19 de março de 2012

A verdade oblíqua

Entrevista de JEAN BAUDRILLARD do livro Simulacros e Simulações

O pensador que inspirou a trilogia "Matrix" não gosta do filme e acha que a cultura americana impõe padrões banais

LUíS ANTôNIO GIRON


O professor baixo e mal-humorado é hoje uma das figuras mais populares do novo século. O pensador francês Jean Baudrillard, de 74 anos, recusa-se a falar em inglês. Mesmo assim, é tão popular nos Estados Unidos por causa de suas análises sobre a cultura de massa que foi convidado a fazer um show de filosofia em Las Vegas.


ÉPOCA - Suas idéias demolidoras estão mais em moda do que nunca. O mundo ficou mais parecido com o senhor?
Jean Baudrillard - Não aconteceu nada. O resultado de um consumo rápido e maciço de idéias só pode ser redutor. Há um mal-entendido em relação a meu pensamento. Citam meus conceitos de modo irracional. Hoje o pensamento é tratado de forma irresponsável. Tudo é efeito especial. Veja o conceito de pós-modernidade. Ele não existe, mas o mundo inteiro o usa com a maior familiaridade. Eu próprio sou chamado de 'pós-moderno', o que é um absurdo.

ÉPOCA - Mas pós-modernidade não é um conceito teórico racional?
Baudrillard - A noção de pós-modernidade não passa de uma forma irresponsável de abordagem pseudocientífica dos fenômenos. Trata-se de um sistema de interpretações a partir de uma palavra com crédito ilimitado, que pode ser aplicada a qualquer coisa. Seria piada chamá-la de conceito teórico.

ÉPOCA - Se não é pós-moderno, como o senhor define seu pensamento em poucas palavras? Os críticos o chamam de pensador terrorista, ou niilista irônico.
Baudrillard - Sou um dissidente da verdade. Não creio na idéia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo.

ÉPOCA - Como o senhor explica a espetacularização da realidade?
Baudrillard - Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto. No começo de minha carreira intelectual, nos anos 60, escrevi um ensaio intitulado 'A Economia Política dos Signos', a indústria do espetáculo ainda engatinhava e os signos cumpriam a função simples de substituir objetos reais. Analisei o papel do valor dos signos nas trocas humanas. Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar.



ÉPOCA - A disseminação de signos a despeito dos objetos pode conduzir a civilização à renúncia do saber?
Baudrillard - Alguma coisa se perdeu no meio da história humana recente. O relativismo dos signos resultou em uma espécie de catástrofe simbólica. Amargamos hoje a morte da crítica e das categorias racionais. O pior é que não estamos preparados para enfrentar a nova situação. É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade. A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia.

ÉPOCA - Seu raciocínio lembra os dos personagens da trilogia Matrix. O senhor gostou do filme?
Baudrillard - É uma produção divertida, repleta de efeitos especiais, só que muito metafórica. Os irmãos Wachowski são bons no que fazem. Keanu Reeves também tem me citado em muitas ocasiões, só que eu não tenho certeza de que ele captou meu pensamento. O fato, porém, é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman Show e Cidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para essa atividade.

ÉPOCA - Quanto à arte, o senhor se dedicou a analisar o fenômeno artístico ao longo dos anos. Em que pé se encontra a arte contemporânea?
Baudrillard - A arte se integrou ao ciclo da banalidade. Ela voltou a ser realista, a desejar a restituição da reprodução clássica. A arte quer cumplicidade do público e gozar de um status especial de culto, situação prefigurada nas sinfonias de Gustav Mahler. Claro que há exceções, mas, em geral, os artistas se renderam à realidade tecnológica. Desde os ready-mades de Marcel Duchamp, a importância da arte diminuiu, porque a obra de arte deixou de ter um valor em si. Os signos soterraram a singularidade. Os artistas se submetem a imperativos políticos, e não mais seguem ideais estéticos. A arte já não transforma a realidade e isso é muito grave.


ÉPOCA - Por que o senhor escreveu tanto sobre a cultura americana mas nunca refletiu sobre o Brasil, que o senhor tanto adora visitar?
Baudrillard - Já me cobraram um livro sobre o Brasil. Cito-o em minhas Cool Memories (trabalho no quinto volume) e em outros textos, mas a cultura brasileira é muito complexa para meu alcance teórico. Ela não se enquadra muito em minhas preocupações com a contemporaneidade, não tem nada a ver com a americana, com seus dualismos maniqueístas, um país que se construiu a partir das simulações, um deserto da cultura no qual o vazio é tudo. Os Estados Unidos são o grau zero da cultura, possuem uma sociedade regressiva, primitiva e altamente original em sua vacuidade. No Brasil há leis de sensualidade e de alegria de viver, bem mais complicadas de explicar. No Brasil, vigora o charme.

ÉPOCA - O que o senhor pensa da civilização americana depois dos atentados de 11 de setembro? O mundo mudou mesmo por causa deles?
Baudrillard - Claro que mudou. Nunca mais seremos os mesmos depois da destruição do World Trade Center. Abordo o tema em Power Inferno, uma coletânea de artigos sobre o império americano e a política. Considero os atentados um ato fundador do novo século, um acontecimento simbólico de imensa importância porque de certa forma consagra o império mundial e sua banalidade. A Guerra do Iraque apenas dá seqüência às ações imperiais. Os terroristas que destruíram as torres gêmeas introduziram uma forma alternativa de violência que se dissemina em alta velocidade. A nova modalidade está gerando uma visão de realidade que o homem desconhecia. O terrorismo funda o admirável mundo novo. Bom ou mau, é o que há de novo em filosofia. O terrorismo está alterando a realidade e a visão de mundo. Para lidar com um fato de tamanha envergadura, precisamos assimilar suas lições por meio do pensamento.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Intelectuais e poder: uma conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze - Traduzido

Esta é uma transcrição de uma conversa de 1972, entre os filósofos pós-estruturalistas de Michel Foucault e Gilles Deleuze, que discute as relações entre as lutas das mulheres, homossexuais, etc prisioneiros a luta de classes, e também a relação entre teoria, prática e poder

Esta transcrição apareceu pela primeira vez em Inglês no livro "A linguagem, memória Contador-Prática,: ensaios selecionados e entrevistas por Michel Foucault, editado por Donald F. Bouchard.

Michel Foucault: Um maoísta me disse uma vez: "Eu posso facilmente entender o propósito de Sartre no tapume conosco, eu posso entender seus objetivos e seu envolvimento na política, eu posso compreender parcialmente a sua posição, desde que você sempre se preocupou com o problema de confinamento. Mas Deleuze é um enigma. " Fiquei chocado com esta declaração, porque a sua posição sempre me pareceu particularmente claro para mim.

Gilles Deleuze: Possivelmente estamos no processo de experimentar uma nova relação entre teoria e prática. Ao mesmo tempo, a prática foi considerada uma aplicação da teoria, uma conseqüência, em outros momentos, é uma sensação ruim oposto e ele foi pensado para inspirar a teoria, a ser indispensável para a criação de futuras formas teóricas. Em qualquer caso, a sua relação foi entendida em termos de um processo de totalização. Para nós, no entanto, a questão é vista sob uma luz diferente. As relações entre teoria e prática são muito mais parciais e fragmentárias. por um lado, uma teoria é sempre local e afins a um campo limitada, e é aplicada em outra esfera, mais ou menos distante a partir dele. A relação que mantém com a aplicação de uma teoria nunca é de semelhança. Além disso, a partir do momento em que uma teoria se move em seu próprio domínio, ele começa a encontrar obstáculos, paredes e bloqueios que exigem a sua retransmissão por outro tipo de discurso (é por este outro discurso que, eventualmente, passa para um domínio diferente). A prática é um conjunto de relês de um ponto teórico para o outro, e teoria é um relê de uma prática para o outro. Nenhuma teoria pode se desenvolver sem eventualmente encontrar uma parede, e prática é necessária para perfurar este muro. Por exemplo, seu trabalho começou na análise teórica do contexto de confinamento, especificamente no que diz respeito ao asilo psiquiátrico dentro de uma sociedade capitalista no século XIX. Então você se tornou ciente da necessidade de pessoas confinadas a falar por si, para criar um relé (é possível, ao contrário, que sua função já era a de um relé em relação a eles), e este grupo encontra-se em prisões - - essas pessoas estão presas. Foi nesta base que você organizou o grupo de informações para as prisões (GIP) (1), sendo o objectivo criar condições que permitam aos próprios presos para falar. Seria absolutamente falso dizer, como o maoísta implícita, que, em se mudar para essa prática que estavam aplicando suas teorias. Este não era um aplicativo; nem era um projeto para iniciar reformas ou de um inquérito no sentido tradicional. A ênfase era totalmente diferente: um sistema de relés dentro de uma esfera maior, dentro de uma multiplicidade de peças que são tanto teórica como prática. Um intelectual teorização, para nós, já não é um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um grupo ou um sindicato que se apropria do direito de elegibilidade, a sua consciência. Quem fala e age? É sempre uma multiplicidade, mesmo dentro da pessoa que fala e age. Todos nós somos "pequenos grupos". (2) Representação não existe mais, não há apenas uma ação teórico-ação e ação prática que servem como centros e redes de formulário.

MF: Parece-me que o envolvimento político do intelectual era tradicionalmente o produto de dois diferentes aspectos de sua atividade: a sua posição como intelectual na sociedade burguesa, no sistema de produção capitalista e na ideologia que ela produz ou impõe (seu pobreza, exploração, rejeição, perseguição, as acusações de atividade subversiva, a imoralidade, etc), e seu discurso adequado na medida em que ele revelou uma verdade particular, que revelou relações políticas onde foram insuspeita. Estas duas formas de politização não se excluem mutuamente, mas, sendo de uma ordem diferente, nem que eles coincidem. Alguns foram classificados como "párias" e outros como "socialistas". Durante momentos de reação violenta por parte das autoridades, estas duas posições foram prontamente fundidos: após 1848, depois da Comuna, a partir de 1940. O intelectual foi rejeitado e perseguido no momento preciso, quando os fatos se tornou incontestável, quando era proibido dizer que o rei estava nu. O intelectual dizia a verdade àqueles que ainda tinha que vê-lo, em nome daqueles que foram proibidos de falar a verdade: ele era a consciência, a consciência e eloquência. Na agitação mais recente (3) o intelectual descobriu que as massas já não precisa dele para ganhar conhecimento: eles sabem perfeitamente bem, sem ilusão, pois eles sabem muito melhor do que ele e eles são certamente capazes de se expressar. Mas existe um sistema de poder que bloqueia, proíbe, e invalida esse discurso e esse conhecimento, um poder não só encontrado na autoridade manifesto de censura, mas que penetra profundamente e sutilmente toda uma rede social. Intelectuais são eles próprios agentes desse sistema de poder, a idéia de sua responsabilidade pela "consciência" e parte do discurso formulários do sistema. O papel do intelectual não é mais a colocar-se "um pouco à frente e ao lado", a fim de expressar a verdade sufocada da coletividade, mas sim, é lutar contra as formas de poder que transformá-lo em seu objeto e instrumento na esfera de "conhecimento" verdade "", "consciência" e "discurso". (4)

Neste sentido a teoria não expressará, não traduzirá, ou servem para aplicar a prática: é prática. Mas é local e regional, como você disse, e não totalizante. Esta é uma luta contra o poder, uma luta que visa revelar e minando o poder onde ele é mais invisível e insidioso. Não é "despertar a consciência" que luta (as massas têm consciência, há algum tempo que a consciência é uma forma de conhecimento e consciência como a base da subjetividade é uma prerrogativa da burguesia), mas do poder seiva, para tomar poder, é uma atividade realizada ao lado daqueles que lutam pelo poder, e não sua iluminação a partir de uma distância segura. A "teoria" é o sistema regional desta luta.

GD: Precisamente. Uma teoria é exatamente como uma caixa de ferramentas. Não tem nada a ver com o significante. Deve ser útil. Tem de funcionar. E não para si mesma. Se ninguém usa, a começar pelo próprio teórico (que então deixa de ser um teórico), então a teoria é inútil ou o momento é inadequado. Nós não revisar uma teoria, mas construir novos; não temos escolha a não ser fazer os outros. É estranho que era Proust, um autor pensado para ser um intelectual puro, que disse de forma tão clara: tratar o meu livro como um par de óculos dirigidos para fora, se eles não lhe agradar, encontrar um outro par, deixo isso para encontrar o seu próprio instrumento, que é necessariamente um investimento para o combate. A teoria não totalizar, é um instrumento para a multiplicação e também se multiplica. É na natureza do poder de totalizar e é a sua posição. e que eu concordo plenamente com que a teoria é, por natureza oposição ao poder. Assim que uma teoria está envolvido em um determinado ponto, percebemos que ela nunca vai ter a menor importância prática a menos que possa entrar em erupção em uma área totalmente diferente. É por isso que a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou as reformas são projetadas por pessoas que dizem ser representativa, que fazem uma profissão de falar pelos outros, e eles levam a uma divisão de poder, uma distribuição deste novo poder que é, consequentemente, aumentou a repressão dupla, ou que surgem a partir de as queixas e demandas das pessoas envolvidas. Este último caso não é mais uma ação revolucionária reforma, mas que as questões (expressando toda a força de sua parcialidade) a totalidade do poder e da hierarquia que mantém. Isto é certamente evidente nas prisões: a menor e mais insignificante das exigências dos presos pode punção Pleven do pseudoreform (5). Se os protestos das crianças foram ouvidas no jardim de infância, se suas perguntas foram atendidos, seria suficiente para explodir todo o sistema educacional. Não há como negar que o nosso sistema social é totalmente sem tolerância; isso explica sua extrema fragilidade em todos os seus aspectos e também a sua necessidade de uma forma global de repressão. Na minha opinião, você foi o primeiro em seus livros e na prática-esfera para nos ensinar algo absolutamente fundamental: a indignidade de falar pelos outros. Pe ridicularizado representação e disse que estava acabado, mas não conseguiu tirar as consequências desta "teórica" ​​conversão para apreciar o fato teórico de que só os directamente envolvidos pode falar de uma maneira prática em seu próprio nome.

MF: E quando os prisioneiros começaram a falar, eles possuíam uma teoria individual de prisões, o sistema penal e da justiça. É esta forma de discurso que, em última análise importa, um discurso contra o poder, o contra-discurso de prisioneiros e aqueles que chamamos de delinqüentes e não uma teoria sobre a delinqüência. O problema das prisões é local e marginal: não mais de 100.000 pessoas passam pelas prisões em um ano. Na França, no momento, entre 300.000 e 400.000 foram para a prisão. No entanto, esse problema marginal parece perturbar a todos. Fiquei surpreso que tantos que não tinha sido a prisão poderia se interessar por seus problemas, que surpreendeu a todos aqueles que nunca ouviram o mau discurso de presos poderia tão facilmente compreendê-los. Como explicar isso? Não é porque, de um modo geral, o sistema penal é a forma na qual o poder é obviamente visto como poder? Para colocar alguém na prisão, para confiná-lo para privá-lo de comida e calor, para impedi-lo de sair, fazer amor, etc, esta é certamente a manifestação mais frenética do poder imaginável. No outro dia eu estava falando com uma mulher que mal estava na prisão e ela dizia: ". Imagine, que na idade de 40, fui punido um dia com uma refeição de pão seco" O que impressiona nesta história não é a infantilidade do exercício do poder, mas o cinismo com que o poder é exercido como poder, no mais arcaico, a maneira pueril infantil. Como as crianças que aprendem o que significa ser reduzida a pão e água. A prisão é o único lugar onde o poder se manifesta em seu estado nu, na sua forma mais excessiva, e onde ele se justifica como força moral. "Estou no meu direito de puni-lo, porque você sabe que ele é criminoso para roubar e matar ...... O que é fascinante nas prisões é que, pela primeira vez, o poder não esconder ou mascarar-se, revela-se como tirania perseguido nos mínimos detalhes, é cínico e ao mesmo tempo, pura e inteiramente "justificado", pois sua prática pode ser totalmente formulada no âmbito da moralidade sua tirania brutal, consequentemente aparece como dominação serena do Bem sobre o Mal, de. ordem sobre a desordem.

GD: Sim, eo inverso é igualmente verdadeiro. Não são apenas os prisioneiros tratados como crianças, mas as crianças são tratadas como prisioneiras. Crianças são submetidas a uma infantilização que é estranho para eles. Nesta base, é inegável que as escolas se assemelham a prisões e que as fábricas são a sua maior aproximação. Olhe para a entrada de uma fábrica da Renault, ou em qualquer outro lugar para esse assunto: três ingressos para entrar no banheiro durante o dia. Você encontrou um texto do século XVIII por Jeremy Bentham propor reformas de prisão, em nome desta reforma exaltado, ser criado um sistema circular em que a prisão renovada serve de modelo e onde o indivíduo passa imperceptivelmente da escola para a fábrica, da fábrica para a prisão e vice-versa. Esta é a essência do impulso reformista, de representação reformada. Pelo contrário, quando as pessoas começam a falar ea agir em seu próprio nome, eles não se opõem à sua representação (mesmo que sua reversão) para outro, pois eles não se opõem a uma nova representatividade para a representatividade falsa do poder. Por exemplo, lembro-me dizendo o que não existe justiça popular contra a justiça; o acerto de contas se dá em outro nível.

MF: Eu acho que não é simplesmente a idéia de formas melhores e mais justas de justiça que fundamenta o ódio das pessoas do sistema judicial, de juízes, tribunais e prisões, mas de retirada deste e antes de mais nada, a percepção singular que o poder é sempre exercido à custa do povo. A luta anti-judiciária é uma luta contra o poder e eu não acho que é uma luta contra a injustiça, contra a injustiça do sistema judicial, ou uma luta para melhorar a eficiência de suas instituições. É particularmente notável que em surtos de tumulto e revolta em movimentos sediciosos ou o sistema judicial tem sido um alvo tão atraente como a estrutura financeira, o exército, e outras formas de poder. Minha hipótese, mas é apenas uma hipótese é que os tribunais populares, tais como aqueles encontrados na Revolução, eram um meio para a classe média baixa, que foram aliados com as massas, para salvar e recuperar a iniciativa na luta contra o sistema judicial. Para conseguir isso, eles propuseram um sistema judicial baseado na possibilidade de justiça equitativa, onde um juiz pode emitir um veredicto justo. A forma de identificação do tribunal de justiça pertence à ideologia burguesa de justiça.

GD: Na base de nossa situação atual, o poder enfaticamente desenvolve uma visão total ou global. Ou seja, todas as formas atuais de repressão (repressão racista dos trabalhadores imigrantes, a repressão nas fábricas, no sistema educacional, ea repressão geral da juventude) são facilmente totalizados a partir do ponto de vista do poder. Não devemos apenas procurar a unidade dessa forma em reação a Maio de 68, mas mais apropriadamente, na preparação concertada e organização do futuro próximo, o capitalismo francês agora depende de uma "margem" do desemprego e abandonou o liberal e máscara paterna que prometeu pleno emprego. Nesta perspectiva, começamos a ver a unidade das formas de repressão: restrições à imigração, uma vez que é reconhecido que os trabalhos mais difíceis e ingrata ir para imigrantes trabalhadores repressão nas fábricas, porque os franceses deve readquirir o "gosto" para o trabalho cada vez mais difícil, a luta contra os jovens ea repressão do sistema educacional, porque a repressão policial é mais ativo quando há menos necessidade de jovens na força de trabalho. Uma vasta gama de profissionais (professores, psiquiatras, educadores de todos os tipos, etc) será chamado a exercer funções que tradicionalmente pertenciam à polícia. Isso é algo que você anunciava há muito tempo, e pensava-se impossível no momento: o reforço de todas as estruturas de confinamento. Contra esta política global do poder, iniciamos localizadas contra-respostas, escaramuças, ativos e defesas ocasionalmente preventivas. Nós não temos necessidade de totalizar o que é invariavelmente totalizados no lado do poder, se estivéssemos a caminhar nesse sentido, isso significaria restaurando formas representativas de centralismo e uma estrutura hierárquica. Temos de criar filiações laterais e todo um sistema de bases net-obras e popular, e isso é especialmente difícil. Em qualquer caso, já não definem a realidade como uma continuação da política no sentido tradicional da concorrência e da distribuição do poder, através das chamadas agências representativas do Partido Comunista ou a União Geral dos Trabalhadores (6). A realidade é o que realmente acontece nas fábricas, nas escolas, nos quartéis, nas prisões, nas delegacias de polícia. E esta ação comporta um tipo de informação que é totalmente diferente daquela encontrada nos jornais (o que explica o tipo de informação transportada pela Agence de Imprensa da Libertação (7). "

FOUCAULT: Não é esta dificuldade de encontrar formas adequadas de luta um resultado do fato de que continuamos a ignorar o problema do poder? Afinal de contas, nós tivemos que esperar até o século XIX antes de começarmos a compreender a natureza da exploração, e até hoje, ainda temos de compreender totalmente a natureza do poder. Pode ser que Marx e Freud não pode satisfazer o nosso desejo de entender essa coisa enigmática que chamamos de poder, que é ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, onipresente. Teorias de governo e as análises tradicionais de seus mecanismos certamente não esgotam o campo onde o poder é exercido e onde funciona. A questão do poder re-alimentação de um total enigma. Quem exerce o poder? E em qual esfera? Agora sabemos com razoável certeza, que explora os outros, que recebe os lucros, o que as pessoas estão envolvidas, e sabemos como esses fundos são reinvestidos. Mas, como para o poder. . . Sabemos que não está nas mãos daqueles que governam. Mas, é claro, a idéia da "classe dominante" nunca recebeu uma formulação adequada, e nem têm outros termos, como "para dominar ..... para governar ..... para governar", etc Estes noções são muito fluidos e exigem uma análise. Devemos também investigar os limites impostos ao exercício do poder de os relés através do qual opera e na medida de sua influência sobre os aspectos muitas vezes insignificantes da hierarquia e as formas de controlo, vigilância, proibição e restrição. Em todos os lugares que o poder existe, ele está sendo exercido. Ninguém, a rigor, tem o direito oficial ao poder, e ainda está sempre animado em uma determinada direção, com algumas pessoas de um lado e alguns no outro. Muitas vezes, é difícil dizer quem detém o poder em um sentido preciso, mas é fácil ver que não tem poder. Se a leitura de seus livros (de Nietzsche para o que eu antecipar em Capitalismo e Schisophrenia (8) tem sido essencial para mim, é porque eles parecem ir muito longe em explorar este problema: sob o tema antigo do significado, do significante eo significado, etc, você desenvolveu a questão do poder, da desigualdade de poderes e de suas lutas. Cada luta se desenvolve em torno de uma determinada fonte de energia (qualquer um dos incontáveis, minúscula fontes, um chefe do pequeno-tempo, o gerente de "HLM", "um guarda da prisão, um juiz, um representante do sindicato, o editor-chefe de um jornal). E se apontar estas fontes, denunciando e falar-se de fazer parte da luta, não é porque eles eram desconhecidas. Pelo contrário, é porque, para falar sobre este assunto, para forçar as redes institucionalizadas de informação para escutar, para produzir nomes, apontar o dedo de acusação, para encontrar metas, é o primeiro passo no inversão de poder eo início de novas lutas contra as formas de poder existentes. se o discurso dos detentos ou dos médicos da prisão constitui uma forma de luta, é porque eles confiscam, ao menos temporariamente, o poder de falar sobre as condições de prisão no presente, . propriedade exclusiva dos administradores das prisões e seus amigos em grupos de reforma O discurso de luta não se opõe ao inconsciente, mas a secreta Pode não parecer muito,. mas o que se acabou por ser mais do que esperávamos A? série de mal-entendidos se relaciona com as coisas que são "convidados", "reprimido", e "não dito", e eles permitem que o barato "psicanálise" dos objetos próprios de luta é talvez mais difícil de descobrir um segredo que o inconsciente.. Os dois temas frequentes no passado recente, que "a escrita dá origem a elementos reprimidos" e que "a escrita é necessariamente uma atividade subversiva," parecem trair uma série de operações que merecem ser severamente denunciado.

GD: Com relação ao problema que você colocou: é claro que explora, quem lucra e quem governa, mas o poder não deixa de ser algo mais difuso. Eu arriscaria a seguinte hipótese: o impulso do marxismo era para definir o problema, essencialmente, em termos de interesses (poder é exercido por uma classe dominante definida por seus interesses). A pergunta surge imediatamente: como é que as pessoas cujos interesses não estão sendo servidos estritamente pode suportar a estrutura de poder existente, exigindo um pedaço da acção? Talvez, isso ocorre porque em termos de investimentos, sejam eles económicos ou inconsciente, o interesse não é a resposta final, há investimentos de desejo que a função de uma forma mais profunda e difusa do que os nossos interesses ditam. Mas, claro, nunca desejamos contra os nossos interesses, porque o interesse sempre segue e encontra-se onde o desejo a colocou. Não podemos calar o grito de Reich: as massas não foram enganadas, em determinado momento, eles realmente queriam um regime fascista! Há investimentos de desejo que o molde e distribuição de energia, que tornam a propriedade do policial, tanto quanto do primeiro-ministro, neste contexto, não há diferença qualitativa entre o poder exercido pelo policial eo primeiro-ministro. A natureza desses investimentos de desejo em um grupo social explica por que os partidos políticos ou sindicatos, que podem ter ou deveriam ter investimentos revolucionários em nome dos interesses de classe, são tantas vezes reformar orientada ou absolutamente reacionário no nível do desejo.

MF: Como você diz, a relação entre desejo, poder e interesse são mais complexas do que geralmente se pensa, e não é, necessariamente, aqueles que exercem o poder que têm interesse na sua execução, nem sempre é possível para aqueles com interesses de exercer o poder. Além disso, o desejo de poder estabelece uma relação singular entre o poder e interesse. Pode acontecer que as massas, durante os períodos de fascistas, desejo que certas pessoas assumir o poder, as pessoas com quem eles são incapazes de identificar uma vez que estes indivíduos exercem poder contra as massas e à sua custa, até o extremo de sua morte, seu sacrifício, sua massacre. No entanto, elas desejam este poder particular; eles querem que ele seja exercido. Esta peça de desejo, poder e interesse tem recebido muito pouca atenção. Foi um longo tempo antes de nós começamos a entender a exploração e desejo tem tido e continua a ter uma longa história. É possível que as lutas acontecendo agora e as teorias locais, regionais, e descontínuos que derivam dessas lutas e que são indissociáveis ​​deles estão no limiar de nossa descoberta do modo como o poder é exercido.

GD: Neste contexto, devo voltar à questão: o atual movimento revolucionário criou vários centros, e não como resultado de fraqueza ou insuficiência, uma vez que um certo tipo de totalização pertence ao poder e as forças da reação. (Vietnã, por exemplo, é um impressionante exemplo de localizadas contra-tática). Mas arco somos nós para definir as redes, as ligações transversais entre esses pontos ativos descontínuos, de um país para outro ou dentro de um único país?

MF: A questão da descontinuidade geográfica que você levanta pode significar o seguinte: assim que lutamos contra a exploração, o proletariado não apenas conduz a luta, mas também define suas metas, seus métodos, e os locais e instrumentos de confronto, e se aliar -se com o proletariado é aceitar as suas posições, a sua ideologia e suas motivações para o combate. Isto significa identificação total. Mas se a luta é dirigida contra o poder, então todos aqueles sobre quem o poder é exercido em seu detrimento, todos os que acham intolerável, podem começar a luta em seu próprio terreno e com base em sua própria atividade (ou passividade). Em se envolver em uma luta que diz respeito a seus próprios interesses, cujos objectivos que entender claramente e cujos métodos que só eles podem determinar, eles entram em um processo revolucionário. Eles naturalmente entram como aliados do proletariado, porque o poder é exercido do jeito que está, a fim de manter a exploração capitalista. Eles realmente servir à causa do proletariado lutando nesses lugares se encontram oprimidos. As mulheres, prisioneiros, soldados recrutados, os pacientes do hospital, e os homossexuais já iniciaram uma luta específica contra o poder parcelar, as restrições e controles, que são exercidas sobre eles. Essas lutas estão realmente envolvidos no movimento revolucionário na medida em que eles são radical, intransigente e nonreformist, e recusar qualquer tentativa de chegar a uma nova disposição de o mesmo poder com, no máximo, uma mudança de mestres. E esses movimentos estão ligados ao movimento revolucionário do proletariado na medida em que eles lutam contra os controles e restrições que servem o mesmo sistema de poder.

Neste sentido, o quadro geral apresentado pela luta não é certamente a da totalização você mencionado anteriormente, esta totalização teórica sob o disfarce de "verdade". A generalidade da luta especificamente retira do sistema de poder em si, de todas as formas nas quais o poder é exercido e aplicado.

GD: E o que nós somos incapazes de aproximar-se em qualquer de suas aplicações sem revelar o seu caráter difuso, de modo que somos necessariamente levou - com base na demanda mais insignificante ao desejo de explodi-lo completamente. Cada ataque ou defesa revolucionária, porém parcial, está ligado, desta forma, a luta dos trabalhadores.

Esta discussão foi gravada 04 de marco de 1972, e foi publicado em uma edição especial do L'Arc (n º 49, pp 3-10), dedicado a Gilles Deleuze. Ela é reproduzida aqui com permissão da L'Arc. (Todas as notas fornecidas pelo editor.)

1. "Groupe d'informação de" prisões: dois Foucault publicações mais recentes (Eu, Pierre Rivière e Surveiller et punir) resultam de tal associação.
2. Cf. acima "Theatrum Philosophicum", p. 185 em Língua, Counter-Memória, prática.
3. Maio de 1968, popularmente conhecida como os "acontecimentos de maio".
4. Veja discours L'Ordre du, pp 47-53 em Língua, Counter-Memory, Practice.
5, René Pleven foi o primeiro-ministro da França no início dos anos 1950.
6. "Confederação Generale de Travailleurs", Confederação Geral dos Trabalhadores.
7. Libertação Agência de Notícias.
8. Nietzsche et la Philosophie (Paris: PUF, 1962) e Capitalisme et schisophrenie, vol. 1, "Anti-Édipo, em colaboração com F. Guattari (Paris: Editions de Minuit, 1912). Ambos os livros estão agora disponíveis em Inglês.
9. Habitações à Loyer Modéré - arrendamento habitacional moderado ".

POR QUE A GUERRA?

(EINSTEIN E FREUD) 1932



(b) TRADUÇÕES INGLESAS:
Why War?
1933 Paris: Instituto Internacional para Cooperação Intelectual (Liga das Nações).
57 págs. (Trad. de Stuart Gilbert.)
1939 Londres: Peace Pledge Union. 24 págs. (Reimpressão da anterior.)
1950 C. P., 5, 273-87. (Omite a carta de Einstein.) (Trad. de James Strachey.)

A presente tradução inglesa da carta de Freud é uma versão corrigida publicada em 1950. A carta de Einstein é incluída aqui com autorização de seus testamenteiros e, por solicitação destes, é apresentada na versão original inglesa de Stuart Gilbert. Parte do texto alemão da carta de Freud foi
publicada em Psychoanal. Bewegung, 5 (1933), 207-16. Parte da tradução inglesa de 1933 foi incluída na obra de Rickman, Civilization, War and Death: Selections from Three Works by Sigmund Freud (1939), 82-97.

Foi em 1931 que o Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual foi instruído pelo Comitê Permanente para a Literatura e as Artes da Liga das Nações a promover trocas de correspondência entre intelectuais de renome ‘a respeito de assuntos destinados a servir aos interesses comuns à Liga das Nações e à vida intelectual’, e a publicar essas cartas periodicamente. Entre os primeiros que o Instituto abordou estava Einstein, e foi ele quem sugeriu o nome de Freud. Assim sendo, em junho de 1932, o secretário do Institutoescreveu a Freud, convidando-o a participar, ao que ele prontamente acedeu. A carta de Einstein chegou-lhe no início de agosto, e sua resposta estava concluída um mês depois. A correspondência foi publicada em Paris, pelo Instituto, em março de 1933, em alemão, francês e inglês, simultaneamente. No entanto, sua circulação foi proibida na Alemanha. Freud não ficou propriamente entusiasmado com o trabalho e qualificou-o como discussão enfadonha e estéril (Jones, 1957, 187). Einstein e Freud absolutamente nunca foram íntimos um do outro e apenas tiveram um encontro no início de 1927, na casa do filho mais novo de Freud, em Berlim. Em carta a Ferenczi, dando conta do ocorrido, Freud escreveu: ‘Ele entende tanto de psicologia quanto eu entendo de física, de modo que tivemos uma conversa muito agradável.’(Ibid., 139). Algumas cartas muito amistosas foram trocadas entre os dois, em 1936 e 1939. (Ibid., 217-18 e 259.) Já anteriormente Freud escrevera sobre o tema da guerra: na primeira seção (‘The
Disillusionment of War’) de seu artigo ‘Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte’ (1915b), escrito logo após o início da primeira guerra mundial. Embora algumas das idéias expressas no presente artigo apareçam no anterior, elas estão mais estreitamente relacionadas às idéias contidas em seus escritos recentes sobre temas sociológicos — O Futuro de uma Ilusão (1927c) e O Mal- Estar na Civilização (1930a). Um interesse especial surge aqui em relação a um desenvolvimento maior de pontos de vista de Freud sobre civilização como ‘processo’, que tinham sido apresentados por ele em diversos tópicos do último desses trabalhos mencionados (por exemplo, no final do Capítulo III, Edição Standard Brasileira, Vol. XXI, págs. 117-18, IMAGO Editora, 1974, e na última parte do Capítulo VIII, ibid., pág. 164 e segs.). Também retoma, uma vez mais, o tema do instinto destrutivo, sobre o qual discorrera extensamente nos Capítulos V e VI do mesmo livro, e ao qual haveria de retornar em escritos posteriores. (Cf. a Introdução do Editor Inglês a O Mal-Estar na Civilização, ibid., págs. 78-80.)
.
Caputh junto a Potsdam, 30 de julho de 1932

Prezado Professor Freud

A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para a Cooperação
Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha própria escolha, para um franco intercâmbio de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar. Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso. Ademais, acredito que aqueles cuja atribuição é atacar o problema de forma profissional e prática, estão apenas adquirindo crescente consciência de sua impotência para abordá-lo, e agora possuem um vivo desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na busca da ciência, podem mirar os problemas do mundo na perspectiva que a distância permite. Quanto a mim, o objetivo habitual de meu pensamento não me permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano. Assim, na indagação ora proposta, posso fazer pouco mais do que procurar esclarecer a questão em referência e, preparando o terreno das soluções mais óbvias, possibilitar que o senhor proporcione a elucidação do problema mediante o auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem. Existem determinados obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos. Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto é, administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar todo conflito que surja entre nações. Cada nação submeter-se-ia à obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer às suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas decisões e a pôr em prática todas as medidas que o tribunal considerasse necessárias para a execução de seus decretos. Já de início, todavia, defronto-me com uma dificuldade; um tribunal é uma instituição humana que, em relação ao poder de que dispõe, é inadequada para fazer cumprir seus veredictos, está muito sujeito a ver suas decisões anuladas por pressões extrajudiciais. Este é um fato com que temos de contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se aproximam mais da justiça ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos são pronunciados), na medida em que a comunidade tem efetivamente o poder de impor o respeito ao seu ideal jurídico. Atualmente, porém, estamos longe de possuir qualquer organização supranacional competente para emitir julgamentos de autoridade incontestável e garantir absoluto acatamento à execução de seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princípio; a busca da segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as nações, em determinada medida, à sua liberdade de ação, ou seja, à sua soberania, e é absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode conduzir a essa segurança. O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal. O reconhecimento desse fato, no entanto, é simplesmente o primeiro passo para uma avaliação da situação atual. Logo surge uma outra questão: como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os soldados, de todas as graduações, que escolheram a guerra como profissão, na crença de que estejam servindo à defesa dos mais altos interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, possui as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma minoria. Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução completa. Daí surge uma nova questão: como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver. Com isso, chegamos à nossa última questão. É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade? Aqui não me estou referindo tão-somente às chamadas massas incultas. A experiência prova que é, antes, a chamada ‘Intelligentzia’ a mais inclinada a ceder a essas desastrosas sugestões coletivas, de vez que o intelectual não tem contato direto com o lado rude da vida, mas a encontra em sua forma sintética mais fácil — na página impressa. Para concluir: Até aqui somente falei das guerras entre nações, aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou, porém, bem consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo, devidas a fatores sociais; ademais, também nas perseguições a minorias raciais.) Foi deliberada a minha insistência naquilo que é a mais típica, mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem, pois aqui temos a melhor ocasião de descobrir maneiras e meios de tornar impossíveis qualquer conflito armado. Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas, explícitas ou implícitas, a todos os aspectos desse problema urgente e absorvente. Mas seria da maior utilidade para nós todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas,pois umatal apresentação bem poderia demarcar o caminho para novos e frutíferos métodos de ação.

Muito cordialmente,

A. EINSTEIN. Viena, setembro de 1932.


Prezado Professor Einstein,

Quando soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercâmbio de pontos de
vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que é atualmente cognoscível, um problema em relação ao qual cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de abordagem especial, e no qual pudéssemos nos encontrar, sobre o mesmo terreno, embora partindo de direções diferentes. O senhor apanhou-me de surpresa,
no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra. Inicialmente me assustei com o pensamento de minha — quase escrevi ‘nossa’ — incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não na condição de cientista da natureza e físico, mas como filantropo: o senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como FridtjofNansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as vítimas famintas e sem teto da guerra mundial. Além do mais, considerei que não me pediam para propor medidas práticas, mas sim apenas que eu delimitasse o problema da evitação da guerra tal como ele se configura aos olhos de um cientista da psicologia. Também nesse ponto, o senhor disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjecturas. O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e cruaviolência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige. É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.
Esta foi, por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto.Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia daviolência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos. ‘L’union fait la force.’ A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. A fim de que a transição da violência a esse novo direito ou justiça pudesse ser efetuada, contudo, uma condição psicológica teve de ser preenchida. A união da maioria devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a seguir, que se julgasse superior em força, haveria de mais uma vez tentar estabelecer o domínio através da violência, e o jogo se repetiria ad infinitum. A comunidade deve manter-se permanentemente, deve organizar-se, deve estabelecer regulamentos para antecipar-se ao risco de rebelião e deve instituir autoridades para fazer com que esses regulamentos — as leis — sejam respeitadas, e para superintender a execução dos atos legais de violência. O reconhecimento de uma entidade de interesses como estes levou ao surgimento de vínculos emocionais entre os membros de um grupo de pessoas unidas — sentimentos comuns, que são a verdadeira fonte de sua força. Acredito que, com isso, já tenhamos todos os elementos essenciais: a violência suplantada pela transferência do poder a uma unidade maior, que se mantém unida por laços emocionais entre os seus membros. O que resta dizer não é senão uma ampliação e uma repetição desse fato.
A situação é simples enquanto a comunidade consiste em apenas poucos indivíduos
igualmente fortes. As leis de uma tal associação irão determinar o grau em que, se a segurança da vida comunal deve ser garantida, cada indivíduo deve abrir mão de sua liberdade pessoal de utilizar a sua força para fins violentos. Um estado de equilíbrio dessa espécie, porém, só é concebível teoricamente. Na realidade, a situação complica-se pelo fato de que, desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como conseqüência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição. Dessa época em diante, existem na comunidade dois fatores em atividade que são fonte de inquietação relativamente a assuntos da lei, mas que tendem, ao mesmo tempo, a um maior crescimento da lei. Primeiramente, são feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos — isto é, procuram escapar do domínio pela lei para o domínio pela violência. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos. Essa segunda tendência torna-se especialmente importante se uma mudança real de poder ocorre dentro da comunidade, como pode ocorrer em conseqüência de diversos fatores históricos. Nesse caso, o direito pode gradualmente adaptar-se à nova distribuição do poder; ou, como sucede com maior freqüência, a classe dominante se recusa a admitir a mudança e a rebelião e a guerra civil se seguem, com uma suspensão temporária da lei e com novas tentativas de solução mediante a violência, terminando pelo estabelecimento de um novo sistema de leis. Ainda há uma terceira fonte da qual podem surgir modificações da lei, e que invariavelmente se exprime por meios pacíficos: consiste na transformação cultural dos membros da comunidade. Isto, porém, propriamente faz parte de uma outra correlação e deve ser considerado posteriormente.Ver em [[1]].
Vemos, pois, que a solução violenta de conflitos de interesses não é evitada sequer dentro de uma comunidade. As necessidades cotidianas e os interesses comuns, inevitáveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar, tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma conclusão rápida, e, sob tais condições, existe uma crescente probabilidade de se encontrar uma solução pacífica. Outrossim, um rápido olhar pela história da raça humana revela uma série infindável de conflitos entre uma comunidade e outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores — entre cidades, províncias, raças, nações, impérios —, que quase sempre se formaram pela força das armas. Guerras dessa espécie terminam ou pelo saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes. É impossível estabelecer qualquer julgamento geral das guerras de conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongóis e pelos turcos, não trouxeram senão malefícios. Outras, pelo contrário, contribuíram para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas quais um novo sistema de leis solucionou osconflitos. Desse modo, as conquistas dos romanos deram aos países próximos ao Mediterrâneo a inestimável pax romana, e a ambição dos reis franceses de ampliar os seus domínios criou uma França pacificamente unida e florescente. Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz ‘perene’, pois está em condições de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de coesão entre as partes que foram unidas pela violência. Ademais, até hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que nunca, soluções violentas. O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas. Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente ininteligível se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo a determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da força. Já vimos [[1]] que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator. As idéias a que se faz o apelo só podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar quanta força essas idéias podem exercer. A história nosensina que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — idéia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espécie. Na realidade, é por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as nações se regem nos dias de hoje, atuam em sentido oposto. Algumas pessoas tendem a profetizar que não será possível pôr um fim à guerra, enquanto a forma comunista de pensar não tenha encontrado aceitação universal. Mas esse objetivo, em todo caso, está muito remoto, atualmente, e talvez só pudesse ser alcançado após as mais terríveis guerras civis. Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei,originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência. Passo agora, a acrescentar algumas observações aos seus comentários. O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, ver em[[1]], de que neles exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise? De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atração e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado — ou, como dizemos, amalgamado — por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.
Se o senhor quiser acompanhar-me um pouco mais, verá que as ações humanas estão
sujeitas a uma outra complicação de natureza diferente. Muito raramente uma ação é obra de um impulso instintual único (que deve estar composto de Eros e destrutividade). A fim de tornar possível uma ação, há que haver, via de regra, uma combinação desses motivos compostos. Isto, há muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matéria, o professor G. C.Lichtenberg, que ensinava física em Göttingen, durante o nosso classicismo, embora, talvez, ele fosse ainda mais notável como psicólogo do que como físico. Ele inventou uma ‘bússola de motivos’, pois escreveu: ‘Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser dispostos à maneira da rosa-dos-ventos e receber nomes de uma forma parecida: por exemplo, “pão — pão — fama” ou “fama — fama — pão”.’ De forma que, quando os seres humanos são incitados à guerra, podem ter toda uma gama de motivos para se deixarem levar — uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Não há por que enumerá-los todos. Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsosdestrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros. Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Foi-nos até mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da consciência a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?
Para nosso propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em meio à tranqüilidade, povosque não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; podese tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra.
Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos
indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras:
‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.
Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade,ver em [[1]] leva-me a uma outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a se classificarem em dois tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses últimos constituem a vasta maioria; têm necessidade de uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria devotam uma submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há dúvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis, embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha.
O resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico desinteressado é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É melhor a pessoa, em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios à mão. Eu gostaria, porém, de discutir mais uma questão que o senhor não menciona em sua carta, a qual me interessa em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito natural, parece ter uma base biológica e ser dificilmente evitável na prática. Não há motivo para se surpreender com o fato de eu levantar essa questão. Para o propósito de uma investigação como esta, poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento. A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras razões mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua forma atual, a guerra já não é mais uma oportunidade de atingir os velhos ideais de heroísmo, e a de que, devido ao aperfeiçoamento dos instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda não ter sido unanimemente repudiada. Sem dúvida, é possível o debate em tornode alguns desses pontos. Pode-se indagar se uma comunidade não deveria ter o direito de dispor da vida dos indivíduos; nem toda guerra é passível de condenação em igual medida; de vez que existem países e nações que estão preparados para a destruição impiedosa de outros, esses outros devem ser armados para a guerra. Mas não me deterei em nenhum desses aspectos; não constituem aquilo que o senhor deseja examinar comigo, e tenho em mente algo diverso. Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude.
Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e incerto o seu resultado, algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez esse processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um sentido ele prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instruídas. Talvez se possa comparar o processo à domesticação de determinadas espécies animais, e ele se acompanha, indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos. Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades. E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.
Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de toda estima, subscrevo-me,

Cordialmente,
SIGM. FREUD

(Extraído de VOL.XXII das Ob
ras Completas de S. Freud. Edição Eletrônica)